Antonieta Aparecida

Wednesday, August 31, 2005

A inimportância de ser um eu!

Acho de muita importância descubramos cada um de nós, onde termina o coletivo e começa o individual. Ou o nosso pensar — conquanto modificado pelo temperamento pessoal, pelas idiossincrasias de cada um — será totalmente coletivo? O “coletivo” é o conglomerado de condicionamentos vários, nascidos das ações e reações sociais, das influências educativas, das crenças, dogmas e preceitos religiosos, etc. Todo esse processo heterogêneo constitui o coletivo, e se examinardes, se olhardes a vós mesmos, vereis que tudo o que pensais, vossas crenças ou descrenças, vossos ideais ou oposição aos ideais, vossos esforços, vossa inveja, vossos impulsos, vosso senso de responsabilidade social — vereis que tudo isso é resultado do coletivo. Se sois pacifista, vosso pacifismo é o resultado de um certo condicionamento.

Assim, se examinamos a nós mesmos, admiramo-nos de ver quanto estamos integrados no coletivo. No mundo ocidental, onde o cristianismo domina há tantos séculos,sois criados no condicionamento respectivo. Sois educados como católicos ou protestantes, com todas as divisões do protestantismo. E tendo sido educados dessa maneira, crendo em absurdos de toda ordem — no inferno, na punição eterna, no purgatório, no único Salvador, no pecado original e outras coisas mais — estais condicionados por essa educação, e ainda que vos afasteis dessas coisas, no vosso inconsciente permanecerá sempre um resíduo desse condicionamento. Tendes sempre o medo do inferno, ou de não crerdes num certo Salvador, etc.

Assim, se consideramos bem esse extraordinário fenômeno, parecerá um tanto absurdo uma pessoa dizer-se “um indivíduo”. Podeis ter gostos individuais, ter vosso nome próprio, e uma fisionomia completamente diferente da de outro homem, mas o processo do vosso pensar é, por inteiro, um resultado do coletivo. Os instintos raciais, as tradições, os valores morais, a extraordinária devoção ao sucesso, a ambição de poder, de posição, de riquezas, geradora de violência — não há dúvida de que tudo isso é resultado do coletivo, uma herança secular. E é possível do meio desse conglomerado, extrair o indivíduo? Ou é impossível de todo? Se levarmos a sério esta questão de promover a transformação radical, uma revolução, não é importantíssimo consideremos este ponto fundamental?

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